História

Grupo Karolinka na II Mostra de Folclore Polonês em São Mateus do Sul

Fundado em 22 de fevereiro de 1992, o Grupo Folclórico Polonês Karolinka, de São Mateus do Sul, completa 25 anos de existência em 2017. Nessa caminhada, centenas de pessoas colaboraram para tornar o Karolinka uma das maiores referências de São Mateus do Sul no que diz respeito à preservação de costumes e tradições que cruzaram o Oceano Atlântico junto com milhares de imigrantes poloneses no fim do século 19.

A trajetória do grupo é o reflexo do processo de valorização da cultura polonesa que emergiu na cidade. Por anos, durante o século 20, o comportamento introvertido dos descendentes de poloneses reservava os costumes trazidos pelos pais e avós ao ambiente familiar, religioso ou comunitário. E isso não sem dificuldades. Com o decorrer dos anos, a barreira linguística e a naturalização da cultura brasileira, bem como o fechamento de escolas e sociedades localizadas nas colônias e a proibição do idioma polonês, limitaram ainda mais a preservação cultural.

A cultura, no entanto, sobreviveu a tudo – guerras, ditaduras, políticas de governo, crises e desenvolvimentos econômicos. É possível dizer, portanto, que o Grupo Karolinka é fruto dessa resistência. É fruto de uma luta que, em meio a tantos fatores de origem, possui uma missão: conhecer o passado para pensar o futuro.

Quando, em 1971, dezenas de descendentes de imigrantes poloneses decidiram comemorar o centenário da colonização polonesa do Paraná em São Mateus do Sul, a semente da valorização da cultura foi plantada na cidade. Anos mais tarde, o 1º Baile do Imigrante Polonês reuniu centenas de pessoas no Clube União Beneficente Náutica (Clube Unbenau), dentre elas muitos colonos, simples agricultores, que manifestavam em suas canções, embaladas por violino, contrabaixo ou clarinete, vários elementos trazidos de além-mar: nas letras, as consoantes da língua polonesa, o ritmo das melodias populares e as tradições do campo e da vida humilde.

Duas décadas depois, em 1990, foi criada a Representação Central da Comunidade Brasileiro-Polonesa no Brasil (Braspol). A partir dela, diversos núcleos locais se desenvolveram: em 1991, foi criado o de São Mateus do Sul. Desde a carta de princípios da Braspol, a preservação do folclore polonês por meio de grupos já era tratada como um objetivo de desenvolvimento da organização. O que surpreendeu a todos foi o rápido interesse e a força com que as festas eram adotadas pelas comunidades polonesas. Em agosto de 1991, a Festa de Nossa Senhora de Częstochowa, na comunidade de Água Branca, reuniu milhares de pessoas, e a apresentação do Grupo Folclórico Lublin, de Irati, despertou a ação necessária para formar o grupo folclórico de São Mateus do Sul.

Com a colaboração do grupo de jovens Geração Nova São-mateuense (Gensma), da Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e a vinda da professora de dança Urszula Sajda, os ensaios do Grupo Karolinka começaram, juntamente com o Grupo Kraków, da comunidade de Água Branca. Foi um início com muitas dificuldades estruturais, mas também muita dedicação e orgulho em representar o folclore polaco.

A primeira década de existência do Karolinka exigiu bastante energia por parte dos integrantes. Nos primeiros anos, o grupo realizou diversos jantares, festas e promoções para arrecadar fundos. O dinheiro servia para confeccionar os próprios trajes, manter coreógrafos na ativa, pagar por transporte e alimentação – despesas que, com esforço, também saíam dos bolsos dos dançarinos.

Com tantas adversidades, o grupo, que iniciara com dezenas de pares de dançarinos, reduziu de tamanho, chegando a ter apenas quatro casais. Percebia-se, então, a necessidade de fortalecer a participação e o interesse da comunidade e preparar o salto geracional do Karolinka. Assim, em 1998, foi criado o grupo infantil. O número de integrantes cresceu e a participação das famílias que traziam seus filhos para os ensaios significou uma importante colaboração nas atividades do grupo.

Para o Grupo Karolinka que celebramos e assistimos hoje, essa nova fase representou uma segunda etapa da consolidação do folclore polonês em São Mateus do Sul. Em 2000, com o registro de pessoa jurídica, o grupo começou a trilhar seu próprio caminho, já independente da Braspol. Apesar de altos e baixos recorrentes na história do grupo, o Karolinka iniciou uma etapa de evolução de suas atividades, com o apoio determinante de empresas atuantes na região, como Baldo, Companhia Paranaense de Gás (Compagás), Ravato Diesel, Eletrobras, Itaipu Binacional e Petrobras.

Do ponto de vista artístico, o Festival de Dança de Joinville marcou o ápice dessa trajetória. Em 2003 e 2005 – nos espaços alternativos – e em 2004 e em 2011 – na mostra competitiva –, o Karolinka colheu os frutos da dedicação dos dançarinos e de seus coreógrafos. A alta pontuação alcançada colaborou para a autoestima do grupo e o seu reconhecimento em outras regiões do Brasil.

A força do Karolinka e o prestígio conquistado tornam o grupo referência do folclore polonês em uma das cidades mais polonesas do Brasil. A continuidade do trabalho e o empenho de seus membros motivam novas ações, as quais moldam as atividades do grupo para além das danças folclóricas.

Nos últimos anos, com o patrocínio da Petrobras e do Governo Federal, o Karolinka tem desenvolvido ações que diversificam a promoção da cultura polonesa e expandem a sua atuação. Por meio dos projetos “Conhecendo a cultura polono-brasileira” (2013-2014) e “Tradição em Movimento” (2015-2016), foram realizados cursos de culinária e oficinas de maquiagem artística e artesanato. Dentro deste projeto, o Karolinka também organiza o coral polonês e promove cursos de língua polonesa, um conjunto de atividades que tenta englobar a participação de vários integrantes da comunidade são-mateuense, sejam descendentes ou não.

Em 2016, o Grupo Karolinka realizou a II Mostra de Folclore Polonês, em São Mateus do Sul. A apresentação contou com a participação do Zespół Pieśni i Tańca Ziemia Bydgoska, de Bydgoszcz (Polônia). No mesmo ano, a convite do Consulado-Geral da Polônia em Curitiba, o Grupo Karolinka viajou até o Rio de Janeiro para se apresentar ao Comitê Olímpico Polonês, por ocasião dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Quando os polacos de São Mateus do Sul começaram a perceber sua força e capacidade de preservação cultural, no início da década de 1970, talvez não imaginassem ainda que, um dia, a cidade poderia vivenciar um intercâmbio folclórico tão intenso com um país tão distante como a Polônia.

O Karolinka, hoje, proporciona esse contato para a comunidade. E tal descoberta se deu por uma simples e vital razão: a Polônia está aqui perto, e cada integrante da Família Karolinka é responsável por trazer, no caminhar do Polonez, ou no trote do Lajkonik, o ritmo do coração branco e vermelho.